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Sudhana perguntou: Como alguém alcança esta realização
diretamente? Como alguém pode obter esta realização?
Suchandra respondeu: Um homem alcança esta realização
diretamente quando sua mente está desperta para a Prajñaparamita e permanece
na mais íntima relação com ela; pois então ele atinge a auto-realização em
tudo o que ele percebe e compreende.
Sudhana: Alguém atinge a auto-realização por ouvir os
comentários e discursos sobre a Prajñapamita?
Suchandra: Não é assim. E por que não? Porque a
Prajñaparamita vê intimamente dentro da verdade e realidade de todas as
coisas.
Sudhana: Não sucede que o pensar surge do ouvir e que por
pensar e racionalizar uma pessoa vem a perceber o que é o Eu? E não é isto a
auto-realização?
Suchandra: Não é assim. A auto-realização nunca surge do
mero ouvir e pensar. Ó Filho de Boa Família, eu irei ilustrar a questão por
analogia. Ouça! Em um grande deserto não existem fontes ou poços; na
primavera ou no verão quando estava mais quente, um viajante veio do oeste
indo para o leste; ele encontra um homem vindo do leste e lhe pergunta:
‘Estou terrivelmente sedento; imploro-te que me digas onde eu posso
encontrar uma fonte e uma fresca e refrescante sombra onde eu possa beber,
banhar-me, descansar, e assim recuperar-me completamente?’ O homem do leste
dá ao viajante todas as informações pedidas em detalhes, dizendo: ‘Quando tu
fores mais adiante para o leste a estrada irá se dividir em duas, à direita
e à esquerda. Tu deves tomar a da direita, e seguindo esforçadamente adiante
tu irás com certeza chegar a uma linda fonte e uma refrescante sombra’.
Agora, Filho de Boa Família, tu pensas que o caminhante
sedento do oeste, ouvindo as palavras sobre a fontes e as sombras das
árvores, e pensando em ir a tal lugar o mais rápido possível, poderá ser
saciado da sede e calor e ficar recomposto?
Sudhana: Não, ele não ficará. Porque ele apenas será
aliviado da sede e calor e recompor-se-á quando, seguindo as direções do
outro, ele realmente atingir a fonte, beber dela e banhar-se nela.
Suchandra: Filho de Boa Família, assim sucede com o
Bodhisattva. Por meramente ouvir sobre isto, pensar sobre isto, e
intelectualmente compreender isto, tu jamais irás chegar à realização de
nenhuma verdade. Filho de Boa Família, o deserto simboliza o Nascimento e
Morte; o homem do oeste simboliza os seres sencientes; o calor simboliza
toda a sorte de delusões; sede simboliza a arrogância e o desejo; o homem do
leste que conhece o Caminha simboliza o Buddha ou o Bodhisattva o qual,
encarnando o todo-conhecimento, penetrou na verdadeira natureza de todas as
coisas e na realidade da Semelhança; superar a sede e ficar aliviado do
calor por beber da fonte refrescante simboliza a realização da verdade em si
mesmo. Mais uma vez, Filho de Boa Família, dar-te-ei outra ilustração.
Suponhas que o Tathagata permanecesse conosco por outro Kalpa e usando de
toda a espécie de planos e valendo-se de fina retórica e apropriadas
expressões, conseguisse convencer as pessoas deste mundo do maravilhoso
gosto, delicioso odor, toque suave e outras virtudes do néctar celestial; tu
pensas que todos os seres terrestres que ouviram as palavras e argumentos do
Buddha acerca deste néctar poderiam [assim] saboreá-lo?
Sudhana: Não, na verdade; eles não poderiam.
Suchandra: Pois [do mesmo modo] o mero ouvir e pensar
jamais nos fará realizar a verdadeira natureza de Prajñaparamita.
Sudhana: Por quais apropriadas expressões e hábeis
ilustrações, então, pode um Bodhisattva levar-nos ao correto entendimento da
Realidade?
Suchandra: A verdadeira natureza de Prajñaparamita como
realizado por um Bodhisattva - este é o verdadeiro e definitivo princípio
através do qual todas as suas palavras pretendem significar. Quando esta
emancipação é realizada ele pode sobre isto apropriadamente falar e a isto
ilustrar habilmente.