Avatamsaka Sutra


Fas. XXXII

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Sudhana perguntou: Como alguém alcança esta realização diretamente? Como alguém pode obter esta realização?

Suchandra respondeu: Um homem alcança esta realização diretamente quando sua mente está desperta para a Prajñaparamita e permanece na mais íntima relação com ela; pois então ele atinge a auto-realização em tudo o que ele percebe e compreende.

Sudhana: Alguém atinge a auto-realização por ouvir os comentários e discursos sobre a Prajñapamita?

Suchandra: Não é assim. E por que não? Porque a Prajñaparamita vê intimamente dentro da verdade e realidade de todas as coisas.

Sudhana: Não sucede que o pensar surge do ouvir e que por pensar e racionalizar uma pessoa vem a perceber o que é o Eu? E não é isto a auto-realização?

Suchandra: Não é assim. A auto-realização nunca surge do mero ouvir e pensar. Ó Filho de Boa Família, eu irei ilustrar a questão por analogia. Ouça! Em um grande deserto não existem fontes ou poços; na primavera ou no verão quando estava mais quente, um viajante veio do oeste indo para o leste; ele encontra um homem vindo do leste e lhe pergunta: ‘Estou terrivelmente sedento; imploro-te que me digas onde eu posso encontrar uma fonte e uma fresca e refrescante sombra onde eu possa beber, banhar-me, descansar, e assim recuperar-me completamente?’ O homem do leste dá ao viajante todas as informações pedidas em detalhes, dizendo: ‘Quando tu fores mais adiante para o leste a estrada irá se dividir em duas, à direita e à esquerda. Tu deves tomar a da direita, e seguindo esforçadamente adiante tu irás com certeza chegar a uma linda fonte e uma refrescante sombra’.

Agora, Filho de Boa Família, tu pensas que o caminhante sedento do oeste, ouvindo as palavras sobre a fontes e as sombras das árvores, e pensando em ir a tal lugar o mais rápido possível, poderá ser saciado da sede e calor e ficar recomposto?

Sudhana: Não, ele não ficará. Porque ele apenas será aliviado da sede e calor e recompor-se-á quando, seguindo as direções do outro, ele realmente atingir a fonte, beber dela e banhar-se nela.

Suchandra: Filho de Boa Família, assim sucede com o Bodhisattva. Por meramente ouvir sobre isto, pensar sobre isto, e intelectualmente compreender isto, tu jamais irás chegar à realização de nenhuma verdade. Filho de Boa Família, o deserto simboliza o Nascimento e Morte; o homem do oeste simboliza os seres sencientes; o calor simboliza toda a sorte de delusões; sede simboliza a arrogância e o desejo; o homem do leste que conhece o Caminha simboliza o Buddha ou o Bodhisattva o qual, encarnando o todo-conhecimento, penetrou na verdadeira natureza de todas as coisas e na realidade da Semelhança; superar a sede e ficar aliviado do calor por beber da fonte refrescante simboliza a realização da verdade em si mesmo. Mais uma vez, Filho de Boa Família, dar-te-ei outra ilustração. Suponhas que o Tathagata permanecesse conosco por outro Kalpa e usando de toda a espécie de planos e valendo-se de fina retórica e apropriadas expressões, conseguisse convencer as pessoas deste mundo do maravilhoso gosto, delicioso odor, toque suave e outras virtudes do néctar celestial; tu pensas que todos os seres terrestres que ouviram as palavras e argumentos do Buddha acerca deste néctar poderiam [assim] saboreá-lo?

Sudhana: Não, na verdade; eles não poderiam.

Suchandra: Pois [do mesmo modo] o mero ouvir e pensar jamais nos fará realizar a verdadeira natureza de Prajñaparamita.

Sudhana: Por quais apropriadas expressões e hábeis ilustrações, então, pode um Bodhisattva levar-nos ao correto entendimento da Realidade?

Suchandra: A verdadeira natureza de Prajñaparamita como realizado por um Bodhisattva - este é o verdadeiro e definitivo princípio através do qual todas as suas palavras pretendem significar. Quando esta emancipação é realizada ele pode sobre isto apropriadamente falar e a isto ilustrar habilmente.